Lobos, veados e corços tomam lugar do homem

Lobos, corços e veados. A fauna do Parque Natural de Montesinho, no distrito de Bragança, está em crescimento acentuado e sustentado desde há duas décadas. Os animais beneficiam do êxodo de população rumo ao estrangeiro e às cidades do litoral. Também a flora, caracterizada, sobretudo, pelos carvalhais, ganha terreno aos campos de cultivo, entretanto abandonados.

Mais a sul, ainda no distrito de Bragança, no Parque do Douro Internacional, a avifauna também prospera. Com uma excepção: o abutre-do-egipto, espécie que simboliza o parque, está em regressão. A águia, de igual modo, “não tem tido vida fácil”. No entanto, o número de grifos, por exemplo, tem vindo a aumentar. Um progresso que na perspectiva de Paulo Santos, da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, pode ser explicado pelos alimentadores postos em vários pontos escarpados do parque. Mesmo assim, refere, “há aspectos de gestão que devem ser melhorados”.

O biólogo da Universidade do Porto e membro do Fundo para a Protecção dos Animais Selvagens (FAPAS) sublinha que a população residente no interior do PNDI já vê a área protegida com outros olhos. “Dantes quando chegava um jipe com gente de binóculos havia alguma desconfiança. Hoje olham-nos de forma amigável”.

A população terá percebido, diz o biólogo, que se protegerem aquele património natural podem obter receitas: as pessoas acabam por dormir na zona, frequentar restaurantes e cafés. O mais prejudicial, considera Paulo Santos, são “os técnicos que vão para lá falar à população de conservação da natureza com uns termos obtusos e, assim, as pessoas não entendem e rejeitam”.

Em Montesinho, a relação da população com o parque foi desde sempre uma das mais-valias daquela área protegida. Na opinião de Paulo Santos, a explicação não é muito abonatória para a conservação da natureza. “A população olha o parque com bons olhos porque os dinheiros do ambiente, em vez de aplicados na conservação da natureza, foram destinados à criação de melhores condições de vida dos habitantes”.

No parque que integra os concelhos de Bragança e Vinhais, onde a população de lobos é estável, não se ouvem protestos contra estes predadores. Nada que surpreenda os responsáveis da área protegida. E a explicação é simples: “Os lobos não atacam os rebanhos, porque encontram alimento suficiente na montanha.”
A situação actual em Montesinho “é francamente melhor do que há 30 anos”. Quem o afirma é Carlos Aguiar, botânico da Escola Superior Agrária de Bragança. O abandono da agricultura, explica, “criou uma oportunidade para animais e plantas”. Todavia, este aspecto positivo tem um reverso. O abandono cria também condições favoráveis ao crescimento de vegetação arbustiva, que facilita a propagação de chamas. Em Montesinho, os incêndios – que atingiram áreas protegidas nos últimos anos, nomeadamente o Parque Nacional da Peneda-Gerês -, não tiveram, contudo, uma dimensão muito significativa. Graças a uma vasta área de carvalhais e azinhais.

Mas nem tudo são aspectos positivos. O Plano de Ordenamento do Parque está em fase de revisão e há quem tema que as torres eólicas tomem conta da área protegida (ver caixa). A gestão do parque, como o DN tem noticiado, parece perder importância, tanto aqui como no Douro Internacional. As duas áreas devem ficar com direcção única e já estiveram ameaçadas de passar para a dependência do Parque da Peneda-Gerês, sediado em Braga. Quanto a funcionários, já foram mais de cinco dezenas: hoje são 36.

Fonte: PAULA FERREIRA Fonte: DN, 27 de Maio de 2007